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Comunicação e Direitos Humanos
Walter Brito*
Passaram-se quase dois mil anos desde a primeira declaração universal dos direitos humanos. O seu autor, o maior comunicador de todos os tempos, trouxe uma mensagem que mudou radicalmente o conhecimento sobre nós mesmos, sobre a vida e a forma de enxergarmos o mundo. Infelizmente, poucos a exercitaram na prática até os dias de hoje.
Ao longo da história, a experiência acumulada e estruturada na forma de conhecimento, tem sido de vital importância para a sobrevivência da espécie humana, tornando a informação um capital estratégico para o seu desenvolvimento. Nos últimos cinqüenta anos, o advento da tecnologia da informação possibilitou uma mudança sem precedentes no significado do conhecimento. Infelizmente, começamos a direcionar este conhecimento por canais que são veículos de destruição, colocando em perigo a sobrevivência, não somente do homem, mas de todas as formas de vida no planeta.
Em última instância, a destruição da camada de ozônio, das florestas através das queimadas, o aumento do desemprego, e tantos outros males da nossa época são produtos, em potencial, de formas de pensar o mundo, fabricadas pela doutrinação em massa, persuasão, propaganda enganosa, programação, condicionamento ou qualquer outro rótulo que se queira usar para descrever o processo de construção de uma “realidade objetiva”. As percepções desta “realidade” são produtos de um condicionamento sócio-político-econômico inconsciente, que forma perspectivas culturais manipuladas de acordo com os interesses daqueles que tiram proveito do condicionamento perceptivo humano.
Uma parcela expressiva da população do planeta ignora o processo de fabricação da sua realidade, quem o controla, quais os objetivos, programas e mecanismos ocultos que moldam toda a sua existência. A maioria ignora que a natureza da realidade percebida é um aspecto fundamental do processo decisório das suas vidas, e imagina escolher e determinar os seus próprios destinos.
Poucos observam o papel que exerce a indústria da comunicação na modelagem social, capaz de produzir uma “realidade objetiva” fantasiosa, que conduz à alienação ou, mais raramente, ao acesso a valores e verdades factuais que possam contribuir para uma sociedade mentalmente sadia. A propalada era da comunicação que, aparentemente, descortina um mundo maravilhoso, poderá, paradoxalmente, transformar-se na era da manipulação, de efeitos dramáticos sobre os direitos e destinos do homem.
A comunicação social, empresarial, ou qualquer que seja a sua natureza, não pode ser divorciada da realidade que permeia o tecido social, e a sua eficácia será sempre mensurada pelos benefícios, verdadeiros, prestados à sociedade. Acrescente-se, aqui, o respeito à vida em todas as suas formas, o exercício e o resgate da cidadania e dignidade humanas.
À questão dos direitos humanos nos dias atuais, acrescente-se o direito ao questionamento da realidade percebida, ou melhor, da realidade que a mídia nos apresenta. Tanto mais próximos da alienação estivermos, mais distantes estaremos deste questionamento e, conseqüentemente de uma vida útil e significativa. A conformidade cultural empobrece a vida, aliena e torna o homem um repressor, disciplinado e inconsciente de tudo aquilo que the parece diferente do viés familiar e percebido. Para estes, resistir ao narcótico cultural é emocionalmente insuportável.
A tecnologia da mídia pode moldar o mundo, privando o homem do direito de perceber as possibilidades infinitas que a vida lhe oferece ao assumir a responsabilidade por suas próprias definições de realidade. A comunicação, via de regra, determina a forma como pensamos pensar, e esta é a violação maior, da qual poucos podem, penosamente, escapar.
A democratização dos meios de comunicação, o acesso à educação e à nova tecnologia da informação, dentro de um contexto ético, se constituem nas premissas básicas para combater os efeitos nócivos da realidade que aí está. Enquanto cidadãos, todos nós que fazemos a comunicação temos o dever de estar atentos e a responsabilidade pelo papel relevante que exercemos na construção dos meios para garantir os direitos humanos fundamentais do livre pensar e agir. Todo homem tem o direito de agir como indivíduo autônomo, criativo e pensante, consciente das suas perspectivas e responsabilidades diante da vida, e nada poderá cercear-lhe ou induzir-lhe o direito de escolha, segundo a sua própria consciência.
*Walter Brito é geólogo, mestre em geofísica, pós-graduado em Administração de Empresas e atual Coordenador Regional de Comunicação da Petrobras para o Nordeste.
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