COMPORTAMENTO ELEITORAL Mapa da "neutralidade" é samba do crioulo doido


Alberto Dines

Evidentemente amuada com o equilíbrio da série de entrevistas da TV Globo, fazendo beicinho e batendo pezinhos, a Folha de S.Paulo produziu rapidamente o seu atestado de idoneidade eleitoral. Despachou uma profissional de alto gabarito para analisar o mapeamento feito pelo IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) da cobertura dos três maiores jornais de referência nacional. Resultado: a Folha auto-ungiu-se como o veículo mais neutro (domingo, 14/7. pág. A-10).
Como os politicólogos insistem em qualificar-se como "cientistas", portanto submetidos ao primado da objetividade; e como o jornalismo, apesar dos comunicólogos, define-se como atividade cultural, portanto altamente subjetiva, o resultado deste mapa tem todas as condições de ser incluído no concurso internacional do besteirol a ser presidido por Alan Sokal.
O problema não é a matéria da Folha mas o conceito cartográfico que pretende introduzir: simplista e - perdão pela clareza - falacioso. Como é possível classificar matérias em três grupos (neutras, positivas e negativas) sem levar em contas nuances, subtextos, fraseado, vocabulário e outros macetes que qualquer estagiário aprende nos primeiros dias da redação?
Em termos reais, matemáticos, o que significa a frase "elementos editoriais do texto - como títulos, subtítulos e legendas - prevalecem sobre o corpo do texto"? Prevalecem em que medida ou proporção, ilustríssimas caras-pálidas?
De que maneira pode ser aquilatada aquela nota perversa na primeira página chamando para um texto razoavelmente objetivo na página interna? Qual o peso de uma e do outro? E o confronto das matérias na página? E o peso específico das palavras?
Não são lidos os colunistas da Folha, podem ser considerados neutros? Nas contas deste Observador, dos sete diaristas apenas dois preocupam-se com a isenção. Dos sete semanais na página dois, cinco são abertamente militantes. Não importa a favor de quem ou contra quem. Neutros não são. E pesam muito porque dirigidos aos multiplicadores de opinião.
E os cartunistas - hilariantes, brilhantes, artistas maravilhosos - em sã consciência, com um micrômetro na mão, podem ser avaliados como eqüidistantes? Porventura não dispõem de um portentoso poder de persuasão? Um cartunista na primeira página não deve ser considerado como um formidável opinionista?
E as manhas, malícias e mumunhas que se escondem no jogo de palavras? Como quantificar conceitos decorrentes da arrumação das orações em que uma, intercalada, sobrepõe-se às vizinhas? E os apostos, ilustres senhores doutores - é possível calcular o estrago que uma inocente palavrinha entre vírgulas pode causar ao objeto da sentença?
O IUPERJ é uma instituição da maior seriedade, a intenção do estudo reflete uma legítima preocupação com as mazelas da nossa imprensa, a autora da matéria foi uma corajosa e serena Ouvidora da Folha, mas o que está em discussão não são as pessoas, mas esta brincadeira aritmética, quantificação do inquantificável, mensuração do imensurável. Isto dá samba - do crioulo doido.
Em tempo
O Jornal do Brasil de terça-feira, 16/7, traz na metade inferior da nobilíssima página 3 matéria em quatro colunas intitulada "JB tem a cobertura mais isenta". A base da afirmação do título e da argumentação do texto é a mesma pesquisa do IUPERJ referida no artigo acima. Então, ficamos assim: a Folha, conforme sua leitura da pesquisa, considera-se a mais "neutra" na cobertura da eleições; e o JB, conforme a sua, o mais "isento". Pode ser que estejam cobertos de razão, ou que os números parciais da pesquisa revelem matizes insondáveis, mas não é possível deixar de reconhecer um grau inaudito de subjetividade nessas interpretações... enviesadas.
A matéria da Folha (domingo, 14/7) não menciona o Jornal do Brasil nem informa que o centenário jornal do Rio também foi avaliado pelos politicólogos do IUPERJ - instituição, aliás, sediada na mesma cidade. O texto da Folha trata apenas da própria, do Estado de S.Paulo e do Globo - "os jornais de maior penetração nacional", crava.
O Estado, concorrente direto no maior mercado do país, mereceu uma estocada convenientemente inserida em aspas, na boca da fonte principal das informações da matéria, o próprio coordenador da pesquisa: "O Estado [de S.Paulo], na palavras de [Marcus] Figueiredo, 'chama a atenção por ser mais benevolente com o candidato de sua preferência'." Tradução: o Estado apóia José Serra, muito embora a reportagem afirme ter a Folha destinado à candidatura Serra "um espaço relativo expressivamente maior do que o obtido pelo tucano nos outros dois jornais".
Sobre O Globo, parceiro empresarial da Folha, está dito que, neste, "se verifica um quadro geral de equilíbrio, mas com características diferentes das observadas no noticiário da Folha. Para os quatro candidatos [à presidência], as taxas de 'neutro' são menores. Porém, há mais semelhança entre as de 'positivo' e 'negativo'". Tradução: é intraduzível. Os infográficos da Folha não parecem mostrar que entre esta e O Globo "há mais semelhança entre as [taxas] de 'positivo' e 'negativo'". Basta olhar para as curvas formadas pelos números colhidos desde 20 de fevereiro, a cada 15 dias. Mas será isso mesmo?? Melhor deixar pra lá sob risco de escorregar em mais subjetivismos.
Além da fonte do IUPERJ, a Folha ouviu os diretores de Redação da própria e do Globo. A repórter que assina a matéria informa que "a direção do Estado não quis se manifestar sobre as conclusões da pesquisa". Ponto. (Luiz Egypto)



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