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Mídia brasileira globalizada: nossa notícia com outros olhos
A globalização econômica, com os blocos norte-americano, europeu e asiático, e, em menor escala, o Mercosul, vêm produzindo mudanças estruturais na mídia. Não só através das megafusões, que estão apenas começando, nos Estados Unidos e Europa, envolvendo empresas, inclusive de comunicação, mas também com a criação de veículos regionais e mundiais, todos, sediados na Europa e nos Estados Unidos. A CNN mostrou ser uma rede mundial de TV, na Guerra do Golfo. A partir daí, numa decisão muito mais política que econômica, como registraram à época, importantes jornais europeus, a Comunidade Econômica Européia criou a rede de TV Euronews, para fazer frente ao poderio editorial da CNN em defesa dos interesses políticos, econômicos, culturais e esportivos dos Estados Unidos. A Euronews já existe há sete anos, mas, ajuda sem a força da CNN.
A BBC World, criada também no clima globalizado e também para concorrer com a CNN, vem apertando o cerco da concorrência. Afinal, além da importância político-econômico-cultural-esportiva das megaredes de TV's mundiais, há o fato de que hoje o mercado da mídia tem investimentos anuais de mais de um trilhão de dólares, como constatou há algum tempo atrás, o especialista norte-americano Ben Bagdikian. Segundo ele, a partir dos anos 90, num processo que ganhará ainda maior velocidade no início do novo milênio, "algumas megacorporações controlarão a maioria das redes de TV e dos jornais mais importantes, revistas, editoras de livros, rádios, empresas cinematográficas, produtoras de discos e de vídeos".
Segundo ainda Bagdikian, "cada uma dessas corporações planetárias de comunicação, planeja ter, sob seu controle, cada passo do processo de informação e de criação de novos produtos". Curioso é perceber que a concorrência agora protagonizada por CNN, Euronews, BBC World, entre outras, começou há mais de um século. Na primeira metade dos anos 30, do século passado, em l834, os franceses criaram a agência Havras, a primeira agência internacional de notícias do mundo. Seis anos mais tarde, numa decisão político-estratégica, como registraram os pesquisadores, os Estados Unidos, percebendo a importância política, econômica e cultural da Havras, criaram a Associated Press, a AP, que existe até hoje. De lá para cá, surgiram várias outras agências internacionais, como a Frence Press, a AFP, e a americana UPI, mas sempre sediadas nos Estados Unidos ou na Europa. Foram feitas dezenas de tentativas de se criar agências internacionais, fora do eixo EUA-Europa, inclusive na América Latina, mas sem sucesso, por falta de estrutura, de recursos ou por boicote. Uma das experiências mais importantes é a da agência Italiana Interpress, que tenta ter um enfoque latino-americano, mas que não consegue ter assinantes nem entre os grandes jornais brasileiros... E o processo se repete no jornalismo de tv. As agências internacionais de notícias para TV são praticamente a CNN, americana, e a Reuters-Wisnews, européia.
Entre os impressos, crescem os jornais continentais, em outra mudança estrutural, natural, e também com alguns aspectos positivos, não só negativos. Mas, a grande questão é que fora algumas experiências no Mercosul, como a bem feita Gazeta Mercantil do Mercosul, o que se vê são veículos continentais sediados nos Estados Unidos e na Europa. Como a edição européia do "Wall Street Journal", a também edição européia do inglês "Herald Tribune", contando com a participação empresarial do "NY Times", que deram o exemplo à "Folha de São Paulo" e o "O Globo" e se uniram na década passada, no projeto "Herald". Há ainda edições internacionais, inclusive a brasileira, da revista inglesa "The Economist", etc, etc.
Alguém vai perguntar: mas a TV Globo não é a quarta rede mundial? Não distribui sua programação para mais de 90 países? E aí, onde está o oligopólio americano-europeu? Tudo bem. Com a qualidade de sua programação, a Globo entra em todos os continentes. Mas, com novelas ou especiais. Não com jornalismo. É certo que há problemas de língua. Mas, não é só isso. É só lembrar dos boicotes sofridos pela "Tele Montecarlo" ... O exemplo do Telejornal "Echo", da mega mexicana "Televisa", é também ilustrativo, como me disseram há algum tempo especialistas de comunicação mexicanos, quando participei de um congresso de jornalistas na Cidade do México. A "Televisa" tentou criar um telejornal, também inspirados pelos ares da globalização e que atingisse não só uma parte da América do Sul e Central, mas também os Estados Unidos. Mas, na América do Norte, a "Televisa" só conseguiu entrar nas regiões onde há imigrantes mexicanos, ou "chicanos", como dizem os americanos. Incompetência? Boicote? As duas coisas? Os especialistas mexicanos me garantiram que, claro, é difícil penetrar no mercado da mídia americana. Até porque o cidadão norte-americano é muito voltado para si próprio. E que as entidades e a megacorporações industriais e serviços - incluindo comunicações - americanos, são muito ciosos e não abrem seu mercado de mídia para outros países.
É exatamente neste momento que o Congresso Nacional está prestes a aprovar o projeto que vai permitir a participação de pessoas jurídicas e de estrangeiros, possivelmente com 30% das cotas dos veículos brasileiros. Olhando de um lado, é inevitável que isso aconteça no mundo globalizado. E pode trazer dinheiro novo, investimentos. Mas, olhando de outro lado, o risco dos veículos brasileiros perderem o controle editorial é muito grande. Como me disse reservadamente um dos executivos mais importantes da mídia mineira, há alguns dias: " como cidadão eu sou contra essa lei. Vamos passar a ver o Brasil com olhos e com enfoques nos interesses de outros países". A conversa teve a participação de um diretor da OAB-MG, que foi quem puxou o assunto, preocupado com as possíveis conseqüências. Primeiro, porque todo mundo sabe que vai ser possível burlar o percentual de participação de 30% ou outra barreira a ser colocada para garantir a maioria em mãos brasileiras. É só lembrar que na lei atual, cada emissora de TV só pode ter mais seis repetidoras. Mas, elas têm dezenas, algumas, legalmente, controladas por outros empresários, mas muitas nas mãos de "laranjas". Só para se ter uma idéia, dois mega-empresários, que vêm tentando fechar parcerias com veículos brasileiros, sofrem processos por monopolização: Bill Gates, da Microsoft, oficialmente denunciado por monopolização de softwares nos Estados Unidos e Rudolf Murdock, o australiano-inglês, um dos mais poderosos empresários da mídia global e que já teve sérios problemas com a justiça dos estados Unidos e da Itália.
É claro que ao lado desse quadro midiático global, digno de um Arthur Clark ou de um Orwel, e bem ao gosto do chamado consenso de Washington, que começa a sair das paradas de sucesso, à medida que as eleições se sucedem, até na Argentina de Menen, há a mídia comunitária, cada vez mais forte. Mas, sem o peso da opinião pública, que têm os jornalões, as rádios e tvs, abertas ou as grandes do cabo.
Por isso é que pergunto se não estava na hora de se tentar fazer uma grande reunião internacional, como chefes de estado, empresários e sociedade civil. ONGs inclusive, para discutir os rumos da mídia mundial. Fazer uma espécie de Rio 92 da mídia. É claro que alguns países vão resistir, principalmente os Estados Unidos. É só lembrar que os norte-americanos quase acabaram com a Unesco, no início dos anos 80, quando a Comissão Mac Bride, organizada pela senador irlandês, Mac Bride, Prêmio Nobel, tentou discutir parâmetros para que houvesse algum equilíbrio informativo internacional. Mas, muitas indústrias poluidoras também resistiram e a Rio 92 acabou acontecendo, ainda que com poucos resultados práticos, a discussão ambiental cresceu. Por que não tentar fazer a Rio 92 da mídia?
Trazendo a discussão para a cena nacional, vamos perceber que no Brasil se repete a concentração da mídia. Só São Paulo e Rio possuem veículos nacionais, o que tem basicamente a mesma justificativa da concentração da mídia no Primeiro Mundo - a industrialização passou primeiro por lá. No caso brasileiro, é bom lembrar que o Rio foi capital. Mas, conduzida pela força econômica, a mídia brasileira se desloca para São Paulo, com pesados investimentos até de veículos cariocas, como a Globo, em busca de sólidos mercados publicitário e consumidor paulistas. Com a industrialização mineira, a partir dos anos 70, a imprensa local se revitalizou, com o surgimento de veículos como "Hoje em Dia", "O Tempo", "Jornal Pampulha", TV Minas, as tevês a cabo, a TV Universitária, a Horizonte e novos investimentos no jornal "Estado de Minas", das tevês abertas e mesmo das rádios, em menor escala, pelas dificuldades específicas desse tipo de mídia.
Não se sabe ainda é que reflexos terão os investimentos estrangeiros sobre esse equilíbrio, melhor dizendo desequilíbrio midiático nacional. Se a concentração em São Paulo vai se consolidar, ou se estados emergentes como Minas, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina vão passar a ter veículos nacionais ou ao menos de abrangências interestadual. Na outra ponta da globalização, surgem dois outros processos - a ainda frágil dinâmica de interiorização da mídia, até hoje dependente de prefeituras, mas já com experiências interessantes, em regiões mineiras como a Zona da Mata e o Triângulo. E o surgimento de veículos comunitários, já com importantes exemplos, em Belo Horizonte como os da "Rádio Favela", conhecida nacional e internacionalmente e que recentemente recebeu a concessão; a "Rádio Santé", e a TV Comunitária, que apesar de pouco incentivada pelos movimentos populares e entidades sindicais, já é experiência vitoriosa.
Outro processo que correr paralelo ao da globalização da mídia, mas o supera em dimensão e valores investidos, é o de megafusões de empresas de comunicação, cultura e entretenimento, e que, como se verá nos dois trabalhos compilados das revistas "Carta Capital", editada pelo jornalista Mino Carta, e "Reportagem", editada por Raimundo Pereira, tende a concentrar ainda mais, não só a mídia, mas as produções culturais e de entretenimento, nos países do Primeiro Mundo, principalmente nos estados Unidos.
Luiz Carlos Bernardes, Coordenador de Imprensa da OAB/MG, integrante da Comissão de Direito à Informação, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais(SJPMG), da Federação Nacional dos Jornalistas(Fenaj) e ex-diretor da Federação Latino-americana de Jornalistas e da Organização Internacional dos Jornalistas
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