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O país de 100 milhões de cópias
"O músico, o autor e o compositor argentino estão, desgraçada e inexoravelmente, prisioneiros do jogo da oferta e da procura do mercado cultural. Por esta razão, não chegam ao conhecimento do público os melhores e, sim, os eleitos pela sorte, ou melhor, os mais hábeis para inserir-se no sistema. Isto traz, como consequência lógica, uma competição quase canibal entre colegas, dissimulada sob um lastimável manto de hipocrisia e adulação. Assim, estimula-se o individualismo da ultrapassagem e mata-se no nascedouro qualquer intenção de reunir a classe de forma solidária para lutar por interesses comuns." Essa contundente afirmação, contida numa carta, assinada por Raúl Carnota e publicada em 1988 na Revista Musica y Letra de nossa irmã argentina SADAIC, revela uma triste verdade também vivenciada no Brasil. E é sobre essa "verdade mentirosa" que vamos falar. Quando a mídia supervaloriza um cantor, um grupo ou um intérprete qualquer por ele ter vendido tantos milhares ou milhões de exemplares de seu produto fonográfico, ela está cumprindo , a serviço do produtor, uma das regras do marketing, que é a propaganda pela superlativização (às vezes falsa) da procura. E isso é, mais ou menos, a aplicação científica daquele impulso que leva as pessoas a optarem por um restaurante mais cheio, em detrimento de outro, na suposição de que o fato de a casa estar cheia se deva a que, nela, a comida e o atendimento são melhores. Esta perversa utilização mercadológica da procura resulta de uma distorção moderna, já que, no século XIX, o que se convencionou denominar "mercado" era exatamente a representação do equilíbrio entre a oferta e a procura. Nos tempos atuais, a idéia de mercado exprime sempre a tentativa de manipular a procura pela massificação da oferta. E, isso, através de uma subversão da ordem natural, que cria a procura para esgotar o estoque de um produto que não tem procura. A manipulação do mercado pode se dar, entre outros modos, pela falsa ilusão de qualidade, induzida pela propaganda de uma falsa procura: "Está vendendo, então é bom!" E é isso, em geral, o que ocorre com os discos de "milhões de cópias vendidas". Da mesma forma, outra vetor de massificação do consumo é a moda. Antes vista como um fenômeno envolvendo comportamentos de uma elite imitados por classes subalternas, a moda, no mundo atual, é, mais, a imitação do particular pelo geral, do indivíduo pelo coletivo. E esse mimetismo vai se ampliando em círculos concêntricos até chegar aos setores mais afastados do núcleo onde a moda surgiu. Aí, o centro dominante produz outra moda; e o ciclo começa a se repetir, em massa. Porque o conceito de massa parte da idéia de que todo indivíduo, ao se juntar a outros semelhantes, perde sua individualidade, assumindo as características do grupo. É sobre isso que trabalha a massificação. E para ser massificado, o objeto deve ser revestido de características que ultrapassem sua própria realidade: deve ser mitificado, transformado em ídolo. A carta que deu origem a este artigo denuncia a "conspiração do silêncio" que envolve o músico ou autor que "saiu de moda". "Não tem imprensa nem difusão - escreve o missivista - e seus canais de comunicação com o público começam a se fechar sem que o protagonista compreenda o que está acontecendo. Seu próprio individualismo faz com que ele interprete isso como uma reação contra sua pessoa e sua obra, sem se dar conta de que o ataque é dirigido exclusivamente ao que ele representa". A carta denuncia, finalmente, o recurso utilizada contra aqueles que, embora falecidos, têm sua obra ainda viva: ela é em geral, esvaziada em seu conteúdo ou modificada em suas características originais... para "entrar na moda". Dentro desse quadro desumano e canibalesco, valores como companheirismo, solidariedade e espírito de classe sucumbem fragorosamente. E o Sistema sabe muito bem usar e fomentar essas contradições internas, criando o sofisma: "artista é desorganizado, não tem pontualidade". O próprio termo "artista", do jeito que é usado no Brasil, reflete o sofisma: enquanto aqui até apresentador de TV é "artista" e criador de refrões futebolísticos é "compositor", nos Estados Unidos, por exemplo, entertainer é uma coisa e artist, é outra; assim como um songwriter nem sempre é um composer. Aqui, como na Argentina do nosso Raúl Carnota - e mesmo em quase todos os lugares onde viceja o capitalismo nessa forma nefasta e predatória que hoje vivenciamos - só vale mesmo, em termos de mercado, quem vende "um milhão de cópias". Basta ver a empáfia com que essa circunstância é apregoada nos anúncios publicitários, nas chamadas televisivas, nos "grandes" programas em que se disputa a audiência de maneira selvagem e sem nenhum compromisso ético. Pena é que tudo isso embota a inteligência e tolhe a criatividade, fazendo com que os 100 milhões de brasileiros com acesso a televisão e colocados pelo menos na periferia do consumo (se é que existem tantos brasileiros nessa condição), sem outra opção, tenham que ouvir, curtir, dançar, etc, tudo da mesma forma, tudo igualzinho. Como 100 milhões de cópias. Nei Lopes
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