Jornalismo - Profissão em Transe




Por Igor Faustino de Paiva e Lígia Mesquita Barbosa
"Esquinas de São Paulo" - Jornal Laboratório da Faculdade Cásper Libero

As recentes discussões a respeito da entrada do capital estrangeiro nas empresas de comunicação e da não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo trouxeram à tona algumas indagações sobre o futuro da profissão. O neoliberalismo, para variar, é tido como o culpado de tudo. "O jornalismo é um fenômeno sociológico, está dentro de uma moldura, e a moldura envolve uma crise, uma crise que é geral", diz o jornalista Mino Carta, diretor de redação da revista CartaCapital. E completa: "O jornalismo padece dos mesmos males que o país, como no fundo não podia
deixar de ser; pois ele é um dos rostos do poder, o jornalismo serve ao poder".
Há, no entanto, visões menos céticas desse tipo de correlação. O jornalista da Folha de S.Paulo João Batista Natali afirma que "É muito cômodo dizer que o jornalismo está em crise, porque, a partir desse diagnóstico, passamos a olhar toda a estrutura como provisória". Ele garante que há 31 anos recebe alunos de jornalismo que perguntam sobre a crise. "Parece que é uma crise contínua, mas o que acontece é que não existe crise de verdade." O que ocorre, para ele, é que as empresas de mídia atravessaram um período bastante delicado, com aumento da taxa de juros e do preço do papel, endividando-se, fazendo com que, de dois anos para cá, mergulhassem num momento de dificuldade. Assim como qualquer outra empresa brasileira.
Como resultado dessa turbulência, entrou em pauta o debate nacional sobre as mudanças realizadas recentemente no artigo 222 da Constituição Federal, que enunciava: "A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, aos quais caberá a responsabilidade por sua administração e orientação intelectual".
Entre as modificações, destaca-se a entrada de 30% do capital estrangeiro e 100% de participação de pessoa jurídica, o que garante o direito a uma empresa ou partido político de possuir um veículo de comunicação. Com tudo
isso, vem também a desconfiança de que será o fim da imprensa nacional. Hamilton Octavio de Souza, chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP, se alinha entre os desconfiados. Certamente, diz, teremos os programas
jornalísticos obedecendo às determinações do capital estrangeiro. "Acredito que, se não houver resistência e não criarmos canais de comunicação comprometidos com o Brasil, logo não teremos mais informações sobre nosso próprio país e não saberemos distinguir o que é cultura nacional e cultura imposta. A mudança do artigo da Constituição foi mais um ato de entreguismo das elites nacionais".
Mino Carta acalma quem tem esse medo. Em sua opinião, pelo estado de endividamento em que se encontra grande parte da imprensa brasileira, seria ridículo acreditar que algum estrangeiro queira "entregar a grana para o senhor Marinho, o senhor Mesquita ou o senhor Civita, que mostraram sua incompetência administrativa". Ele afirma que boa parcela desse endividamento decorre do fato de as empresas de comunicação no Brasil se portarem como se estivessem em um país rico, desenvolvido. "Na Europa, nos Estados Unidos, as redações têm 30, 40 pessoas e os jornais são impressos em preto-e-branco. Aqui não se começa a pensar numa redação com menos de 300 jornalistas e se gasta muito para imprimir jornais com todas as páginas coloridas. Somos um país grotesco, ridículo. E o nosso jornalismo também é ridículo. Nesse sentido, a mídia é uma metáfora perfeita do Brasil".
Para Natali, o capital estrangeiro não entrará no Brasil para ter influência política, mas para obter rendimentos em longo prazo. "O jornal vai precisar manter sua personalidade e postura, pois é assim que irá crescer." Em sua opinião, o fim da Guerra Fria acabou com essa necessidade de o capital externo intervir para garantir influência política. "Isso definitivamente não existe", sentencia. O jornalista da Folha afirma, em contrapartida, que poucos países têm profissionais tão qualificados como os brasileiros e que não há qualquer crise no modelo de funcionamento da mídia: "O jornalismo nunca foi tão segmentado, nunca parcelas tão numerosas do público ficaram satisfeitas com tantas publicações, jornalistas com pautas bem trabalhadas, textos bem redigidos, ilustrados,
para um público leitor sofisticado. Quando alguém diz 'mas aquela revista fechou', fechou porque não tinha de ter sido aberta".
E completa: a postura e os procedimentos apartidários do jornalismo brasileiro explicam essa qualidade. Mas se esquece de dizer que o público leitor brasileiro está quase anos luz distante do leitorado de países como Argentina, França ou Japão, com um consumo muito maior de publicações.
Para inglês ver

Trombando de frente com tamanha serenidade, o coordenador do curso de jornalismo da PUC Hamilton de Souza identifica um declínio dos atributos do jornalismo, declínio amplo e profundo. "Há uma crise de qualidade e uma
crise existencial. O jornalismo, para cumprir sua função social, precisa trabalhar com a diversidade de opiniões, precisa expressar as várias posições políticas e ideológicas existentes na sociedade. O domínio de um
pensamento único tirou de cena outras posições, eliminou o conflito de opiniões - causou, na verdade, um empobrecimento no processo de produção do jornalismo. Para fazer isso, a grande imprensa burguesa afastou das
redações os melhores quadros do jornalismo, os mais críticos, os opositores do neoliberalismo. Ficou com apenas alguns, para manter a fachada, principalmente no jornalismo opinativo, mas eliminou os mais críticos da reportagem. Fez um enorme trabalho de seleção, seja por cooptação, seja por eliminação pura e simples."
Nessa mesma linha de raciocínio, Mino Carta analisa o problema estritamente político da mídia, que, repete ele, faz o jogo do poder. "Não existe indignação, nossa sociedade é amorfa, e conta com a inestimável colaboração da mídia, que vende programas de uma vulgaridade indescritível na TV e em capas de revistas como Veja, IstoÉ e Época. A cobertura é falsa e mal intencionada. A idéia de uma reportagem investigativa, com apuração dos fatos, já não existe. Existe uma concorrência desapiedada. A imprensa brasileira é pior do que a da Nigéria. O brasileiro morre de fome, gritando gol."
A proliferação de cursos entopem o mercado de canudos. A suspensão da obrigatoriedade do diploma de jornalismo, por decisão da juíza Carla Abrantkoski Rister, da 16ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, traz mais indecisões sobre o futuro do trabalho jornalístico. "A exigência de escolaridade superior e de diploma em área específica contribuiu para melhorar a qualidade do jornalismo brasileiro nos anos 70 e 80. Antes, o jornalismo era exercido por qualquer um, por beletristas, bacharéis, alguns aventureiros, por pessoas sem formação, por patrões que usavam o jornalismo para praticar todo tipo de extorsão", diz Hamilton de Souza. "A regulamentação da profissão, reivindicada por estudantes, escolas e profissionais, contribuiu para definir um perfil profissional para a categoria, com piso salarial, jornada de trabalho, formação intelectual. As escolas têm contribuído na medida em que se dedicam a analisar 'o fazer jornalístico', a fazer a crítica do jornalismo praticado, a idealizar uma atividade comprometida com a sociedade, com as transformações do país." Para ele, o descrédito do diploma, nos final dos
anos 90, tem a ver com a decadência do ensino superior no Brasil. "As escolas passaram a se espelhar exclusivamente no mercado, a fabricar diplomas em massa".
Afinal, se as escolas lançam todos os anos 5 000 novos jornalistas na praça, haverá tanto jornal, revista, programa de rádio e TV, sites de internet para absorver tanta mão-de-obra? Mino Carta e João Batista Natali sempre foram contrários à obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. O que não significa que desaprovem uma "cultura universitária". Um bom curso de Sociologia, de História ou Letras, por exemplo, funciona tanto quanto, ou melhor, que um curso de jornalismo, garantem. "Acredito que o curso de Jornalismo poderia ser uma especialização, um curso de pós-graduação", acentua Mino Carta. E conta: "O curso nasceu durante o regime militar, porque havia um problema de excedente, nossas universidades não tinham lugar para todos. Vamos 'inventar' um curso de
jornalismo e tornar o diploma obrigatório, pois assim proliferam as escolas", diz.
Luiz Gustavo Rollo, formado em Relações Internacionais pela PUC-SP, começou a trabalhar na Folha de S.Paulo antes de terminar o 1o ano de Jornalismo na Cásper Líbero, quando trancou matrícula. Rollo também acredita que o jornalismo deveria ser um curso de pós-graduação, pois, para ele, a falta de especialização e domínio sobre determinados assuntos contribui para a cultura do "achismo" na profissão. Natali explica que o jornal não acata a obrigatoriedade do diploma por acreditar que "a técnica jornalística é algo que se aprende, com maior facilidade, nas redações, desde que haja uma sólida formação cultural".
Frila, apelido de superexplorado
Com o intuito de reduzir os custos com a folha de pagamento, em meio a inúmeros avanços tecnológicos, ocorreu uma terceirização do trabalho de boa parte dos jornalistas. Muitas empresas jornalísticas contratam free-lancers e estagiários, que não possuem vínculo empregatício e têm remuneração menor que os contratados. O diagnóstico de Hamilton de Souza é desanimador: "O jornalismo sempre contou com colaboradores e free-lancers. É uma forma de democratizar os veículos. O que aconteceu na década de 90 é que as empresas jornalísticas se aproveitaram da flexibilização dos direitos trabalhistas para buscar o lucro máximo. Cortaram horas extras, pagamento de domingos e feriados, férias, e aumentaram a exploração da mão-de-obra disponível no mercado de trabalho, com rebaixamento da
remuneração dos 'frilas'. Além disso, ampliaram os esquemas de estágios não-remunerados. Ou seja, o neoliberalismo trouxe de volta a exploração capitalista, algo que existiu nos séculos XVIII e XIX". Para Natali, a terceirização não é uma tendência: "É algo momentâneo, por conta dos cortes realizados nas redações, em que pessoas, com funções específicas, foram recontratadas como terceirizadas. Quando o mercado se aquecer novamente, essas pessoas vão ter poder de barganha".
Há alguma saída, alguma luz no fim do túnel? Para o chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP, a expansão da imprensa brasileira depende principalmente da democratização de oportunidades, da participação de
novos setores sociais no cenário nacional - inclusive para criar canais de expressão diferenciados da grande imprensa: "É preciso democratizar o sistema de rádio e TV, impedir a concentração e os monopólios. Aí sim
poderá ocorrer uma recuperação do jornalismo, tanto em espaço de atuação,
como em qualidade técnica, política e ideológica".




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