Gente ou Agente de Comunicação?



Sonia Favaretto*

O que distingue, afinal, um profissional que atua na área de comunicação? O que o torna diferenciado e solicitado? Observe: as pessoas que trilham esse caminho são aquelas que parecem ter a comunicação na alma. Elas a vivenciam além dos folhetos, folders, revistas, campanhas e estratégias. São pessoas que têm a intuição natural de que sempre há algo além do que se convencionou chamar de comunicação.

Classifico essas pessoas como Agentes de Comunicação. A todo momento, elas conseguem envolver, sensibilizar, despertar no outro a necessidade de enxergar um sentido maior no que está sendo dito, comunicado, transmitido. Porque sempre há um sentido maior. Deste ponto em diante, a comunicação formal flui naturalmente.

Ao receber o briefing do cliente, o Agente de Comunicação faz mais do que avaliar a situação e recomendar a melhor ação. Ele se coloca à parte, vivencia mentalmente o que está sendo dito, questiona, duvida, levanta hipóteses (às vezes absurdas), faz correlações. Mais: ele traz junto nesta jornada o seu cliente. Faz com que ele participe do processo, que também o vivencie, questione, duvide, levante hipóteses, faça correlações, procure, enfim, o sentido maior.

Nesse momento, o cliente se torna também um Agente de Comunicação. O maior ganho, no entanto, não está nesta hora, e sim depois. Se temos sucesso ao conduzir esse processo, isso se torna parte do dia a dia do cliente, uma forma de pensar e agir frente às demandas de forma geral. E, quando se vê, a empresa está cheia de Agentes de Comunicação. Eles estão em Recursos Humanos, Tecnologia, Negócios...

Nesse exercício dialético de criar termos, me aventuro a definir, agora, Gente de Comunicação. Esses são os profissionais que estão -- até competentemente -- cumprindo seus papéis, atendendo o cliente, avaliando, sugerindo, propondo e executando planos de comunicação no prazo e com qualidade. Porém sem alma.

Quando a comunicação é conduzida por Gente, e não Agente, seu alcance fica restrito. Neste modelo, a comunicação não extrapola o âmbito técnico porque não há envolvimento do cliente no mais profundo, que é o processo. Aqui, vamos do briefing ao produto sem escalas.

Esse é o nosso grande desafio: sermos Agentes de Comunicação, pois de Gente o mercado está cheio.
Isso é dom, mas também treino, determinação. E, principalmente, resignação. Resignação ao fato de que quem escolheu comunicação como profissão está aprendendo sempre, pois não há fórmula pronta. Em Comunicação nunca se sabe o suficiente, nunca se tem a resposta pronta. É preciso se colocar à parte, vivenciar, questionar, duvidar, levantar hipóteses, fazer correlações. Buscar o sentido maior. E usar o domínio técnico como ferramenta para servir a esse propósito, e não como um símbolo de poder, restrito e inalcançável.

Sonia Favaretto* é diretora-adjunta de Recursos Humanos do BankBoston.



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