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Jornalista, espécie em extinção
Giampaolo Braga (*)
Já disse certa vez um amigo meu, em tom de galhofa, que todo mundo foi, é ou será jornalista. Completava ele seu pensamento com um corolário: se todos são jornalistas, ninguém é jornalista. Noves fora o viés cômico-filosófico da afirmação, a brincadeira se tornou, com o passar dos anos, um fato duro de encarar: a soma da não-exigência do diploma com o arrocho financeiro por que passam as empresas jornalísticas está colocando o homo jornalisticus na lista de espécies ameaçadas de extinção.
Pelo menos da maneira como está colocada, a profissão parece estar com os dias contados. Ou seja, um jornalista que acorda, vai para uma redação, recebe uma pauta, apura na rua e/ou por telefone, redige uma matéria e volta para casa vai deixar de existir em breve. Pode parecer alarmismo, falta de compreensão dos fluxos e refluxos que regem o mercado, falta de experiência, já que sou recém-formado. É, no entanto, apenas uma análise fria dos fatos. Vejamos.
A liminar da juíza Carla Rister - que acaba de comemorar, impávida, um ano de existência - é a porta aberta para que qualquer um com mediano domínio da língua portuguesa e alguma coisa publicada em letra de forma receba um registro profissional no Ministério do Trabalho. Dirão vocês que há uma larga distância entre possuir o registro e o efetivo exercício da profissão. Concordo. Mas a abertura dessa porteira já teve um efeito: rebaixou o jornalismo de profissão a ofício.
Se, como a juíza afirmou, para ser jornalista não são necessárias "qualificações profissionais específicas", estamos abaixo, por exemplo, dos pedreiros, serralheiros ou torneiros mecânicos, com todo o respeito por quem exerce esses ofícios. Para ser gari no Rio de Janeiro, é preciso passar por uma prova de habilidade específica. Para ser jornalista, não.
Some-se a isso - como se já não fosse o bastante - o engessamento das redações. A multiplicação dos passaralhos, o encolhimento dos postos de trabalho, os processos de fusão que transformam o mercado jornalístico num quase monopólio e as agruras financeiras por que passam as empresas tiveram dois efeitos: fechar a porta da profissão para os que começam nela e vilipendiar os jornalistas.
Como num clube fechado, no qual quem está dentro não sai e quem está fora não entra, as redações, pelo menos as do Rio de Janeiro, se transformaram numa espécie de Academia Brasileira de Letras: é preciso que alguém morra para abrir a vaga. Como as faculdades não param de formar novos jornalistas, cria-se um cenário dantesco, em que profissionais qualificados aceitam subempregos por R$ 300, R$ 400. Ninguém pensaria em pagar esses valores a um advogado ou economista recém-formado, muito menos a algum que já tenha experiência. Por que um jornalista, então, pode receber essa remuneração? Cedo ou tarde os publishers vão descobrir que para tocar um jornal ou revista não é preciso um salão imenso, cheio de gente e computadores. Basta uma salinha de uns 16 metros quadrados, com meia dúzia de editores, chefes de reportagem e diagramadores, e um bom banco de frilas. Coisa que, aliás, grande parte das empresas já possui. O jornal contacta o repórter e o fotógrafo de manhã, passar a pauta, e no final do dia recebe a matéria e as fotos. Trabalho pago, ponto final. Sem encargos trabalhistas, férias, décimo-terceiro, licenças etc. Quem acha que esse é um cenário distante, hipotético, uma antiutopia jornalística, que aguarde. Esse "Brave new world" das redações vai chegar antes do que se imagina.
(*) Jornalista.
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