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Censura e autocensura
Fernando Horacio da Matta (*)
A atual Lei de Imprensa vigente no Brasil, se não tolhe a liberdade do jornalista, configura-se no mínimo como uma ameaça para os profissionais da área. Rígida em vários aspectos, estabelece punições severas, por vezes descabidas. Carrega ainda o ranço do pensamento dominante do sistema militar e disfarça, em sua essência, o que se poderia classificar de censura indireta, procurando salvaguardar às ações e atos de determinados segmentos poderosos da denominada elite - políticos, banqueiros, empresários e outros - como de conglomerados industriais e comerciais. Com raras exceções, o jornalismo brasileiro é exercido com alto índice de ética. O que é ético e o que não é abrange vasto espectro que daria vazão a infindos debates e análises. Vamos procurar sintetizar: ético é informar com precisão, atendo-se à realidade dos fatos; anti-ético é informar de maneira irresponsável e/ou inconseqüente, desprezando-se a exatidão da notícia. Porém, sob o espectro da Lei de Imprensa e de uma boa dose de excesso de moralismo que chega às raias da hipocrisia, muitos acabam por exercer a autocensura. Na dúvida, optam pelo silêncio, o que pode ser conveniente, mas não é correto. O jornalismo, desde os seus primórdios, é exercido com o objetivo de formar opinião através da exposição de idéias ou dp enfoque de apresentar a informação. Isto é: influenciar, persuadir e conquistar pessoas para determinadas linhas de pensamento ou ideologias. A imparcialidade é relativa. Está, quando possível, em se ouvir os dois lados, ou todos os lados, e expor o que foi apurado sem deturpar e omitir. Isso não impede de apresentar a notícia ou o fato - ou ainda o artigo e o editorial - de acordo com o ideário do jornalista ou da orientação da direção do veículo. Um mesmo fato - por exemplo, os índices de criminalidade do Rio e de São Paulo - poderá ser visto de uma forma pelo O Globo e de outra pela Folha de S. Paulo, dependendo da ênfase que se dê aos mesmos números e aos mesmos aspectos da notícia. O sensacionalismo tangeia a imprensa marron. Mas não se deve definir sensacionalismo pelas palavras e sim pelo conteúdo do que expressa. Sensacionalismo é a apelação, como entrar na vida íntima de alguém para revelar escândalos ou superdimensionar fatos com o intuito de, ao denegrir alguém, ganhar leitores. Será que as reportagens do Washigton Post sobre Watergate, que acabaram por derrubar Richard Nixon da presidência dos Estados Unidos, podem ser consideradas sensacionalistas? Será que as denúncias de corrupção do governo Collor foram sensacionalistas? Será que as revelações das atividades sexuais de Bill Clinton não deveriam chegar ao povo americano? "Pessoas públicas não têm vida privada", eis um antigo conceito. Cabe à imprensa informar e à opinião pública julgar. A Princesa Diana foi vítima dos paparazzi ou de sua obsessão pela privacidade? Até onde Diana não fazia da suposta preservação de sua vida privada uma forma de se promover, de se tornar difícil exatamente para obter o efeito contrário de aparecer? Se ela tinha algo a esconder era porque estava cometendo atos que preferia ocultar. Por que ela, com suposto horror à imprensa, não se preveniu ao sair com um bêbado ao volante? Será que é mais importante meia dúzia de fotógrafos ocasionais que a responsabilidade de entregar sua vida nas mãos de um motorista alcoolizado? Culpar os paparazzi pela morte da princesa é, no mínimo, um exagero estapafúrdio. Enfocar o fato de outros ângulos, sim, eleva o nível da informação e proporciona às pessoas mais capacidade para julgar e formar opinião. A coragem de informar, de analisar e interpretar, é inerente à atividade jornalística. Prevalece o equilíbrio e o ponto de quebra entre o ético e o sensacionalismo que margeia o jornalismo marron. Há casos, porém, que cabe ao repórter e ao editor decidir como apresentar a informação. Aí entra a autocensura, que mutila a notícia e é tão nefasta como a censura em si. Muitos colunistas recorrem para a fórmula de redigir notas dando o fato e omitindo nomes. É uma forma enganosa, que leva o leitor a conclusões ilusórias, na maioria das vezes incorretas. Qualquer um pode ligar a notícia a pessoas que estão absolutamente fora de seu âmbito. Quando na década de 50 Odylo Costa, filho assumiu a redação iniciando a grande reforma do Jornal do Brasil, ele mandou escrever um cartaz: "Jornal se faz com três premissas - exatidão, exatidão e exatidão". A notícia pode induzir o leitor a um determinado caminho ou a novas opiniões, mas deve ser sempre precisa e completa. Em caso contrário, a decisão mais correta é não publicar. Mário Filho, que transitou pelo jornalismo e pela literatura - e teve seu nome dado ao Estádio do Maracanã -, viu seu irmão Roberto ser assassinado pela campanha difamatória que o pai, em seu jornal, fazia contra uma senhora da sociedade. O drama o marcou para toda vida e serviu como máxima para sua conduta jornalística. Ele ensinava aos jovens repórteres e redatores que em O Globo e no Jornal dos Sports, que dirigia: "A fronteira que separa o jornalismo sadio do jornalismo marron é da espessura de um fio de cabelo transparente que mal podemos perceber".
(*) Jornalista e professor da Fundação Mudes. Tem passagens por grandes veículos de Comunicação do país, como o Jornal do Brasil, Jornal dos Sports e a extinta Manchete. Nos últimos anos, participou como debatedor em programas esportivos de TV, como Espaço Aberto (Globonews) e Bola da Vez (ESPN-Brasil). Chefiou a Assessoria de Comunicação de Furnas Centrais Elétricas.
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