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O anunciante interferindo no conteúdo
Mario Lima Cavalcanti
A situação é polêmica, comum e preocupante: o site de notícias conseguiu vender seu espaço publicitário mais cobiçado. Logo na home-page, que maravilha! O anunciante X, um serviço online de venda de passagens aéreas, está feliz da vida porque tem a certeza de estar atingindo o seu público alvo e porque está agora anunciando em um veículo de peso que é lido por milhares de internautas diariamente.
Tudo corre bem até que, certo dia, o site de notícias publica a seguinte nota: "Y anuncia descontos de até 70% em passagens para o exterior". Queria ver a cara do X lendo essa notícia. Deve estar se sentindo um Z... Mas ele não perde tempo e liga para o veículo: "Oi, aqui é o fulano do X. Queria saber porque vocês colocaram notícia do concorrente no ar". Em vez de falar que, em tempos de guerra, a tal notícia é quente e por isso está no ar, o contato do X no veículo, pensando em como é difícil conseguir um anunciante hoje em dia, responde: "Nossa, deve ter acontecido alguma confusão. Vou ver quem colocou essa notícia no ar. Não podemos dividir a sua imagem com outra empresa assim desse jeito".
Diálogos como o de cima às vezes são mais grosseiros, mas eu quis dar um desconto. De qualquer forma, a idéia principal, ou seja, anunciantes interferindo no conteúdo de um veículo online, faz parte do cotidiano. Imaginem, por exemplo, um site que não coloca no ar uma notícia sobre a fusão Brahma/Antarctica porque está veiculando um banner do Skol Beats. Para muitos anunciantes, notícia e conteúdo publicitário são a mesma coisa, o que interessa é a exposição da marca. E para o veículo, resta comportar-se de forma ingênua, aceitando a teimosia do anunciante para não perder a grana que está entrando.
O aconselhável em casos como esse é que as publicações online, assim como qualquer outro tipo de veículo, tenham uma política de conteúdo e publicidade que beneficie ambos, para que as cartas fiquem bem à mostra e nenhuma das duas partes saia prejudicada.
Quanto ao X, não duvido nada se dias depois ele ligar novamente para o cicrano do veículo online é disser: "Oi, lembra daquela notícia sobre o Y? Já que não deu para tirá-la do ar, não pode colocar alguma matéria sobre a gente?".
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