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A morte do jornal
Paulo Castelo Branco (*) Fonte: Jornal de Brasília
Estava lá o jornal estendido no chão em decúbito dorsal. Para esconder o falecido da curiosidade dos transeuntes, colocaram sobre ele um corpo humano em igual posição. Aproximei-me para ver se era algum periódico do qual, eventualmente, eu fosse assinante. Pela aglomeração em volta do indigitado, tive dificuldades de chegar mais próximo, mas, pude verificar que a página de esportes indicava mais uma derrota do Palmeiras e a indicação do Zagallo para dirigir a seleção brasileira; esta notícia, localizada entre as pernas do corpo que encobria o jornal, dava a impressão de que a edição era muito antiga, no entanto, a notícia sobre a derrota do Palmeiras oferecia a evidência de que era coisa recente. As pessoas falavam em tom baixo, e eu não pude entender direito a razão da morte do jornal, que não parecia ser muito jovem; ao contrário, aparentava ser velho e apresentava marcas recentes de intervenções cirúrgicas realizadas por mãos seguras de especialistas. Já ia desistindo de chegar mais perto, quando uma senhora de preto se aproximou e começou a colocar velas em volta da cena. Uma em cada ponta do jornal, provocando mal-estar nas pessoas que estavam mais próximas, abrindo, naturalmente, um espaço para que eu olhasse melhor o exemplar que, naquela altura, já não deixava nenhuma gota de sangue escorrendo de suas linhas. Com atenção, fui verificando a ausência de algumas letras nas matérias que compunham as páginas e, até mesmo, a foto do Zagallo estava incompleta. Fiquei curioso e comecei a fazer algumas perguntas. Ninguém, como sempre, sabia de nada. Eram somente conjecturas e, bisbilhoteiro, resolvi esperar a chegada dos policiais especializados que deveriam chegar em minutos; como costuma acontecer nestas coisas que envolvem a imprensa. Os homens chegaram em suas viaturas incrementadas e, afastando os populares, apagaram as velas e tiraram o corpo de cima do jornal, deixando à mostra a realidade nua e crua da vida. Puxei a minha carteira com a palavra mágica "Imprensa" e logo tive acesso ao trabalho pericial. Constatei que a edição era mesmo do dia pois a manchete elogiava o novo presidente: "Um homem do povo no meio do povo". A foto, faltando umas partes, mostrava o presidente eleito abraçando as pessoas em uma rua como se estivesse em campanha. Estava feliz e sorrindo muito, com a sua estrela na lapela brilhando cada vez mais. Um policial, de terno, perguntou se alguém havia presenciado a morte do jornal. Ninguém respondeu. Perguntou se alguém conhecia o jornal; todos responderam que sim. Perguntou se algum dos presentes tinha alguma relação com o jornal; todos responderam que eram assinantes; por fim, perguntou se alguém queria colaborar nas investigações. Um jovem deu sinal de positivo e o policial o chamou para perto dele; aproveitei e me aproximei também. O policial convidou o jovem a segui-lo até a delegacia onde seria aberto o inquérito, e ele aceitou de pronto. Segui com ele a pé até a delegacia que ficava a poucas quadras. Lá chegando, o delegado começou a interrogar o jovem. Ele respondeu, dizendo que trabalhava na redação do jornal e que vinha notando algumas coisas estranhas há algum tempo. Disse que o jornal era editado em linotipo e ele era o linotipista. Recentemente, apesar de colocar todas as letras para edição, o jornal vinha sempre faltando algumas letras. No início sumia somente a letra "a", com o passar dos dias, outras letras foram desaparecendo até que um dia sumiu uma parte de uma fotografia de primeira página. O editor e o chefe da redação ficaram furiosos com ele e o despediram. Desempregado, comprava o jornal para procurar emprego na página dos classificados que, sabia, sustentava a empresa jornalística. Não consegui nada, pois os anúncios vinham truncados, impedindo saber o local do empregador ou, até mesmo, o telefone. Hoje, preocupado, resolveu avisar aos proprietários do jornal o que estava acontecendo. Não adianta mais, disse o diretor-presidente; o jornal está agonizando numa praça do centro da cidade.
(*) Paulo Castelo Branco é advogado e ex-secretário de Segurança Pública do DF.
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