Comunicação e precisão



Pedro J. Bondaczuk (*)

A imprensa, fenômeno recente, de pouco mais de um século (quando os primeiros jornais diários passaram a circular na Europa), tem um poder imenso de manipular as massas, fazendo cabeças, para o bem ou para o mal (no meu entender, infelizmente, nos últimos tempos, mais para este último). Conta, portanto, com uma capacidade de produzir profundas alterações na sociedade, para melhor ou para pior. Exemplos, nos dois sentidos, existem em profusão. Um foi o surgimento do nazismo na Alemanha, em fins dos anos 20, e a conseqüente tomada do poder por parte de Adolf Hitler, no início da década de 1930.

A humanidade pagou um preço intolerável por permitir essa ascensão de uma ideologia de ódio e discriminação. Correu o risco de tragédia ainda maior do que a Segunda Guerra Mundial, que deixou um rastro de 60 milhões de mortos, um número de mutilados superior a 100 milhões e prejuízos materiais e morais incalculáveis. Caso o Japão não se rendesse, após a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, ou se os alemães conseguissem (antes dos norte-americanos) desenvolver armas nucleares, possivelmente ocorreria uma hecatombe que varreria a espécie humana do mapa. Faltou muito pouco para isso.

O sociólogo alemão Oswald Spengler (que muitos afirmam que era simpatizante do nazismo, no que não creio), escreveu sobre os meios de comunicação, em fins da década de 20: "A imprensa evoca, transforma, intercambia e manipula a verdade conforme lhe apraz. Ao cabo de três semanas de propaganda pela imprensa, a "verdade" é reconhecida por todos. Há, é claro, liberdade de expressão numa democracia, mas a imprensa tem a liberdade de registrar ou deixar de registrar o que diz o cidadão. Pode condenar à morte qualquer "verdade", simplesmente fazendo silêncio em torno dela, abstendo-se de comunicá-la ao mundo. Em lugar da fogueira da Inquisição, temo o grande silêncio que aplaina o caminho dos Césares. Os líderes do partido doutrinam os seus seguidores com artigos, telegramas, fotografias e caricaturas, até as massas clamarem pelas armas e forçarem os seus líderes a assumir uma ditadura que, é claro, eles prepararam zelosamente. No mundo da verdade é a prova que decide tudo, mas no mundo dessa espécie de política o que conta é o sucesso".

Há, no que o genial sociólogo escreveu, alguma invenção, algum exagero, alguma coisa que não condiga com a verdade ou com a realidade atual? E olhem que se passaram oitenta anos dessa constatação. Uma guerra mundial foi travada, mais de duzentos conflitos regionais ocorreram, ditadores os mais diversos ascenderam ao poder, foram depostos e novas ditaduras se engendraram, para também cair e outras tantas, certamente, estão em fermentação em algumas partes do mundo.

A tecnologia de captação e difusão de notícias evoluiu de forma assombrosa. Hoje temos a comunicação instantânea, via satélite. Contamos com uma rede mundial de computadores. Jornais são impressos a milhares de quilômetros de distância onde são editados. A televisão está prestes a se tornar absolutamente interativa. Pessoas conversam com outras mesmo que estejam no meio de uma selva, ou de um deserto, pelo telefone celular, com interlocutores distantes a centenas de milhares de quilômetros. Mas a qualidade da informação que se veicula, a veracidade, a credibilidade, etc., em vez de evoluírem, regrediram, e muito, em relação à segunda década do século passado. A comunicação está doente, muito doente, e esta doença chama-se "presunção".

Spengler também escreveu: "Os meios de massa são os meios pelos quais a elite detentora do poder controla as massas, as suas mentes e ações. Parlamentares, congressos e eleições são um simples jogo concertado de antemão, uma farsa levada à cena em nome da liberdade e autodeterminação do povo. Este é o fim da democracia. Pelo dinheiro, a democracia se torna a sua própria demolidora, depois que o dinheiro demoliu o intelecto. Os nobres líderes intelectuais e morais dos começos da democracia são agora substituídos por políticos inescrupulosos e não intelectuais. O governo do povo pelo povo e para o povo cede o lugar ao governo dos políticos pelos políticos e para os políticos. As lutas, as perturbações e a insegurança tornam-se crônicas.
Cansado e enojado das eternas contendas, o povo começa a voltar-se para outras fontes à espera de salvação e dispõe-se a trocar os seus ilusórios "direitos inalienáveis" pela segurança e pela ordem que lhe prometa um candidato a César".
Como se vê, parece até o texto de algum jornalista panfletário, destes nihilistas que pululam por aí e que querem destruir tudo e todos, sem ter nada de melhor para colocar no lugar, e não o de um sociólogo lúcido, aplicado, realista, estudioso, um dos gênios dessa disciplina. E, o que é o pior: o que Spengler escreveu é rigorosamente verdadeiro. E, pior ainda, qualquer pessoa sem preconceitos e sem "amarras" ideológicas pode identificar tudo isso, abrindo aleatoriamente algum jornal, atentando para a programação das TVs ou navegando na Internet. Claro que não se pode e nem se deve generalizar.

Qualquer campanha da imprensa, de alguns poucos dias, pode estreitar relações entre povos inimigos inconciliáveis, levando-os à paz, ou conduzi-los à catástrofe de uma guerra fratricida. O diretor do "La Stampa", de Turim, Giulio de Benedetti, não exagerou quando disse que "um jornal conduzido por um homem honesto e de bom senso, que dissesse sempre a verdade, poderia mudar a face de um país". A mesma mudança, mas com resultados desastrosos, poderia ocorrer no caso de dizer apenas mentiras ou meias-verdades.

Muito maior poder para promover profundas transformações na sociedade tem uma emissora de televisão. Trata-se de veículo de extrema agilidade, que penetra na grande maioria dos lares do mundo, e tem um potencial ilimitado de "fazer cabeças". Por isso, funciona sempre como concessão, que pode ser cassada a qualquer instante, em caso de abuso.
Com a incrível evolução tecnológica que se verifica nos meios de comunicação, em especial na TV e, ultimamente, com o advento e expansão da Internet, cabe à imprensa escrita novo papel. Seus proprietários precisam correr contra o tempo e fazer uma revisão urgente de conceitos e de objetivos, sob pena dos órgãos que dirigem desaparecerem, por se tornarem inúteis e redundantes. Se não o fizerem, fatalmente esse ramo da imprensa será atropelado por veículos mais ágeis, que por sua própria natureza são, virtualmente, instantâneos.

Se os jornais e revistas limitarem-se a dar notícias - em geral com a utilização das mesmas agências, com os editores não se preocupando sequer em personalizar os textos, absolutamente iguais em centenas de órgãos informativos em todo o País - sem que apresentem algum diferencial que os caracterize, não terão a mínima chance de competição. Não acredito nessa hipótese. Mas o risco existe.

O que os jornalistas precisam é, como afirmou, recentemente, Noblat, no portal do Comunique-se: "surpreender" os leitores (ou ouvintes ou telespectadores). Mas com surpresas positivas, através de matérias bem levantadas, rigorosamente exatas, zelosamente checadas, sem que o repórter tome qualquer partido, mas se limite a exercer o seu papel: o de "reportar". Ou seja, o de ser uma espécie de "gravador humano", que registre tudo o que vê e que ouve e reproduza tudo isso com absoluta fidelidade, "com todos os pingos nos is e todos os tils".
Além disso, é indispensável que todas as partes envolvidas no acontecimento noticiado sejam sempre ouvidas. Só assim os fatos relatados se transformarão em documentos rigorosamente corretos, verídicos e imparciais. Nisso, os jornais e revistas poderão levar nítida vantagem sobre o rádio e a televisão, exatamente por disporem do tempo que os veículos eletrônicos não têm.
Outro ponto que poderão explorar é a opinião. Mas não a de pseudogurus, que se colocam na condição de "sabe tudo", de donos da verdade, quando na maioria das vezes sabem até menos do que o mais bronco dos leitores e não passam de intelectuais bitolados e dogmáticos. É necessário que os jornais se tornem cada vez mais interativos, abrindo espaços crescentes para a manifestação popular. E que acatem, com o devido respeito, estas opiniões, principalmente quando conflitarem com as da direção da empresa. A isso se chama de "democracia". Afinal, o jornal dispõe de local próprio para marcar a sua posição: os editoriais.

Desse debate sadio de idéias (que hoje, virtualmente, não existe em lugar algum), certamente, surgirão soluções efetivas e práticas para os mais graves problemas, sejam políticos, econômicos, sociais ou comportamentais. O julgamento sobre quem está certo ou errado, nos assuntos controversos, deve caber sempre, e unicamente, àqueles sem os quais nenhum órgão de comunicação algum teria razão de existir: os leitores (ou ouvintes, ou telespectadores ou os que navegam na Internet).

(*) Radialista, jornalista e escritor, membro da Academia Campinense de Letras desde 1992.



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