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Transparência do governo é um pressuposto ético
Marco Antônio Eid*
Construir artificialmente a imagem de uma personalidade pública é tarefa factível, mas efêmera...
Tancredo Neves, que se despediu da vida sem ser oficialmente empossado na Presidência da República, à qual havia sido eleito no Congresso Nacional, tinha estilo muito peculiar de lidar com a imprensa, nos cargos públicos que ocupou, em especial como governador de Minas Gerais. Há exemplo emblemático para ilustrar isto: no início de seu último mandato, recebeu a visita de um político. Este, ao sair do gabinete disse aos jornalistas que fora convidado para assumir uma secretaria. No dia seguinte, recortes de jornal na mão, voltou a Tancredo, ponderando: "Veja, governador, toda a imprensa está dizendo que o sr. me convidou para o cargo. Será constrangedor negar". Tancredo respondeu: "Para evitar constrangimentos, você pode dizer a toda a imprensa que o convidei mesmo, mas informe que você não aceitou..."
Porém, a argúcia e romantismo do saudoso presidente — cuja eleição indireta fez o País entender melhor o dito popular "o feitiço contra o feiticeiro" e praticamente delimitou o fim do regime de exceção — não podem mais ser o parâmetro das relações do governo e do Estado com a imprensa. O avanço da democracia e a valorização da cidadania não permitem mais improvisos e postura empírica nesse processo. O melhor exemplo é a própria eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a votação maciça que recebeu de uma nação que cansou de ser efêmera promessa para o futuro e deseja ascender ao primeiro mundo, implica imensa responsabilidade em termos de transparência e interação do Estado com todos os segmentos da sociedade. E o canal mais amplo e direto para este relacionamento aberto com a população é a imprensa. Ou seja, têm de ser muito eficazes as estratégias e ações de comunicação do governo. Isto exige um trabalho eficiente e de muito fôlego por parte da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto, que ganha novas e fundamentais responsabilidades. Não deve ser um órgão público voltado à divulgação exclusiva do gabinete e de um discurso afinado com a retórica oficial do governo, como costuma ocorrer na área estatal; precisa ser um organismo público a serviço da imprensa e da sociedade, constituindo-se em canal fluido para a democratização das informações provenientes de todo um governo guindado ao poder pela esperança e maciça votação dos brasileiros.
Para cumprir essas responsabilidades (o que exige atendimento rápido e eficiente a toda a mídia brasileira, dos grandes aos pequenos jornais e revistas, das redes nacionais de rádio, tv e webmídia às rádios comunitárias legalmente instaladas, dos veículos de ONGs, entidades de classe, sindicatos e escolas às publicações especializadas do País e do Exterior), a assessoria de imprensa do governo não pode correr o risco de repetir velhos vícios, que dificultam o trabalho da imprensa e criam ruídos nas relações com as áreas de comunicação do setor privado.
Não há qualquer exagero em se afirmar que as relações com a imprensa, sempre estratégicas e fundamentais para o Estado e organizações do setor privado, ganham importância ainda maior para o Governo Lula e a Nação. A comunicação correta com a sociedade, por meio da imprensa, será fator decisivo para o sucesso das metas e programas eleitos pelos brasileiros nas urnas de 2002. Assim, a atuação da assessoria deve ser no sentido de facilitar o trabalho da imprensa, de transmitir informações de utilidade pública e/ou capazes de contribuir para a melhoria da saúde, da educação, da segurança; informações de caráter político e econômico — que mudam a vida das pessoas e empresas, derrubam ou estimulam as bolsas de valores, incentivam ou retardam investimentos — também são temas de uma assessoria de imprensa governamental, mas não podem ser objeto de especulação.
Além disso, a comunicação do governo não pode ser personalista, pois construir artificialmente a imagem de uma personalidade pública é tarefa factível, mas efêmera. O verdadeiro estadista torna-se lembrado por sua obra, ética, coerência ideológica, senso de realidade, competência e, sobretudo, pela implementação de políticas públicas eficazes na transformação positiva de uma nação. E não há política pública de fato eficiente sem a devida transparência — pressuposto inalienável da ética —, que só o olhar da imprensa pode garantir.
*Marco Antônio Eid, jornalista, é autor do livro "Entre o Poder e a Mídia — Assessoria de Imprensa no Governo" (Ed. M. Books).
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